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terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

cair de costas




  benjamin e o anjo de costas de klee que não quer cores mas claro&escuro cair de costas do ronald catástrofe mas queda e não movimento ou, não continuidade mas gesto o um só da queda, mas não deserção pois cai de costas: o percurso cronológico contrariado impõe outra questão (que é na origem que termina a queda como se, também nascido do chão, e indo para o futuro, também se revertesse a caída): o atingido de frente ou, no mínimo, o que quer continuar de frente para o mundo dos vivos (e de costas para o dos mortos), certa consciência da queda (a conferir, a determinar) de quem morre&continua no mundo, ainda que.
o nome? (em grego, o que particulariza, o que revela a característica).
sem ginga o quadril de pedra: outra música? poema, a moenda, musseque a terra vermelha, loanda, a lama dos casebres em que se amam, não, divergem, contrários, suados de favela (mexidos em pilão), também angola as bessanganas, estamos na deturpação social e histórica da áfrica, mas não, não isso, elementos como: tira a música óbvia e põe outra (como quem não pode cortar ao certo o pão, que não há, e faz isso com migalhas, farelos de chão), para terminar com o quase xingo-moleque, moleque, chamam assim, apesar.
a página me revolta, uso-a no mínimo, com meu(s) raro(s), não o seu, ainda que não se possa, dizer se o olho (palavra) vai dentro ou fora ou & (da opressão).
depois do nome o intervalo, no vá de va-lha, quase vazado, reticente porém, porejado&não em branco (que de branco já bastam os brancos, vários à mallarmé, hein?).
outro me fala (negro, pemba, avoengo) e o leio (quadro-nêgo) como quem em desfebrização escreve, não escravo, meu nome de tiros (vãos vários) picotado.
o dizer doce, o dizer dos doces, o dizer como os doces, os dizeres da doceira, os doces deserdados num além da mais-valia? (mas não, mas sim): comida dos outro, religião dos outro, opressão dos outro: sobra o emprego (oliveira) de negro (silveira) e ao mesmo tempo ditos os versos vindos da oposição, em postes opostos (a aposta-resposta do travo), ainda que o não seja ao fim o fim.
relendo o ronald ao longo do dia lento, de rastelo e espelho no colo.
nome de intervalo, o que o google olorum escolhe: o nenhum?, partes que não colam, polpa "sem prole" (umbra que a devore em vazio de onoma). mocama palavra no (embornal não há) mnemoseiro.
lamba o livro branco: lembra?, o dialeto eliot do waste lama?
palavras que dizem uma na outra, calam os nomes (saussure será o projeto do deserto?).
o intervalo, enfim, é um lugar malíssimo, de sangue coagulado por cola, de vala cubata por cova, daquilo que não falando (quase) em esmola, ainda&assim, assola.
o seu fetiche é a minha pele (onde o dentro penumbra): você me desenha, nomeia, explora: crioulo, otelo, king cole.
o riso gentili (que não se vende pela tez dos dentes) faculta o açoite - a cabra nos guizos - do mascote de circo: ele, o famigerado, esfarelado entre jogos frívolos de consortes (a conivência de sócios na compra&venda de sortes alheias) e isso mesmo nos supostos ótimos da raça: de um a outro, disse bolle, tentou-se o prumo do diálogo, mas só o do jagunço escolado, não o do entregue à própria cor. a prosa de ferpas entre veredas, não crispada mas como que articulada por molas (deserto é o de quem está fora, em sobrevoo, que no dentro só há paredes e é oco): vianda, vianda e um macaco pra janta de gentes gentilis.
não precisa de in-fans, sig-nans, nem é alguém: tem um branco na sombra e ganha como cabra de ganho, nem em sonho é aquele, ou nem é mais aquele (espécie de ele-nenhum, o que a câmera não capta). mesmo no poema não escapa.
calão (calar para que o nome venha de um não, à mão pesada)(sem artigo mesmo) de caserna (sem anistia ao carcereiro)(aquele com cheiro de bolge do florentino)(aquele do velho fascio no calabouço, pedindo aos campos um resgate institucional via cartinha ao embaixador) do barroco do mattos guerra (capanga de classe&raça, jabor dos seis centos). nomear os nomeadores (bardos sem borda, no à vontade do arbítrio), no contrapé, via tiros no esfíncter e prosa perturbada, saliva de sibila.
palavra, não bata na trave, fira o mero com cara de melro (de keats a eliot, carcereiros centauros da glote, um trote, ou nenhum): entretanto a medida é a mão, quem cava ou é cavado o sabe.
sacra a cura do broxa branco (saco de cancro, se tanto): ainda a sua pele, dentro, onde a sorte é certa, ventre, e a piada é pronta, preta.

digital art by Jason Engle

palavras de Ricardo Pedrosa Alves publicou os livros de poesia Desencantos mínimos (Iluminuras) e Barato (Medusa).
“Cair de costas” é título de um dos livros de Ronald Augusto. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

flor do lácio


centelha

o sonho invade a pele
rubor de metáforas
metafísica
metalinguagem
meta inexata
um aponte
uma ponta
uma ponte
:
a língua

sobre o iceberg nasce uma flor

***

flor do lácio

vou beijar a boca
do meu idioma
lamber a língua
da minha língua
fazer amor
com a flor do lácio





imagem: masaya kushino

palavras: Bianca Velloso nasceu gaúcha, em Porto Alegre; mas cresceu manezinha, na Ilha de Santa Catarina. Optometrista por profissão, mãe por opção, escritora por paixão. É também programadora da Rádio Comunitária Campeche, em parceria com Paulo Renato Venuto e Glauco Marques apresenta o “Sábado Arrastão”, um programa de entrevistas com foco em música e poesia.

sábado, 17 de janeiro de 2015

de eras, perfumada de lótus ...



Porque vamos morrer, os minutos da minha vida ficam mais intensos e eu levo tudo à sério como quem vai morrer a qualquer minuto e não levo nada a serio como quem pode morrer a qualquer minuto. Porque vamos mesmo morrer, eu quero morrer com cento e dez anos, que uma década a mais para quem já viveu um século faz muita falta sim. Porque vamos morrer, eu dou mais risadas do que o habitual e não me importo com o que dizem de mim, principalmente quando falam mal porque as pessoas falam mal de tudo, e é triste se elas ficam bem assim, com isso, e precisam menosprezar os outros para se glorificarem. Eu as glorifico mesmo sem precisar desprezá-las, porque vamos mesmo morrer. Cada coisa, por menor que seja toma uma dimensão infinita e quanto menor e mais simples for, maior e mais infinita se torna, porque a morte traz em si a essência da vida e porque sei da presença dela que tudo se ilumina, mas não faço questão de conhecê-la tão logo, mesmo porque ela já deu certeza que virá, e virá de surpresa. Porque vamos morrer, minha timidez torna-se um tesouro e seduz a todos e quanto mais quietinha eu ficar no meu canto, mais simpatia eu despertarei, que as pessoas terão curiosidade em conhecer e ficar amigas de uma pessoas tão calada e misteriosa como eu, com tanta consciência da vida quanto da morte, sua irmã siamesa. Porque vamos mesmo morrer, eu não tenho medo da morte, que morrer não dói. Morrer não dói. Porque vamos mesmo morrer eu quero mais é me enfeitar de lápis lázuli nos meus braços, pratas nos meus dedos, diamantes nas minhas orelhas, rubis nos meus pés, esmeraldas na minha cabeça e e turmalinas no meu pescoço que é só prá ver, sem precisar tocar. Porque vamos mesmo morrer, eu quero aprender a falar francês, japonês e chinês e passar pelo menos um ano em cada país que fala essa língua para poder me comunicar com as gentes e para que elas me entendam finalmente e que finalmente eu possa dizer que porque vamos mesmo morrer a vida deveria ser o inverso do que é e que a morte nos iguala a todos e quanto mais iguais formos, mais as nossas diferenças nos enriquecerão, e não estou falando em dinheiro. Porque vamos mesmo morrer, temos que entender o lugar da tristeza no mundo e saber ouvir os sambas que foram feitos em madrugadas frias de desolação e descontentamento e que se isso tudo produziu tanta beleza é porque uma coisa completa a outra e porque vamos mesmo morrer eu estou completa de vida e minha vida se completa de uma necessidade de mais vida todas as vezes que olho nos olhos do meu amor e que porque sei que ele também vai morrer eu não paro nunca de amá-lo e amá-lo e amá-lo. Porque vamos mesmo morrer, eu não me canso de colocar vidas no mundo e ensiná-las que é de vida que elas tem que se alimentar e gerar outras vidas até que habitemos os outros planetas de nosso sistema solar, e aos poucos, bem aos poucos que não tenho pressa de nada, outras galáxias, e finalmente outros universos, que duvido que só exista esse e muito menos que só nesse planeta tenha tanta vida e tanta vida diversa em suas cores, formas, cheiros, sabores e sons. Porque vamos mesmo morrer eu entendo o valor das coisas, e sei que a preguiça é necessária assim como o tédio, a depressão, a raiva e que tudo tem seu lugar e sua importância no mundo, e que dosando tudo, tudo fica como sempre foi – infinito. Porque vamos mesmo morrer eu quero subir a escada rolante que desce, cometer infrações de transito, experimentar toda a coleção de verão daquela loja que não vale o que cobra, viver a gloria do capitalismo e dizer que sim – eu amo a sociedade de consumo sem culpa! Mas que queria poder dividi-la, e dizer que todo brasileiro deveria ter direito a uma mansão com piscina, sauna, e outras frivolidades absolutamente necessárias. Quem vai me contrariar? Porque vamos mesmo morrer, eu quero morrer lúcida, no auge da minha alegria, e ser coroada de eras, perfumada de lótus e dormir nos braços cristalinos de Iemanjá!...  

imagem Joshua Hoffine's Horror Photographs

palavras Dionisio Neto  é ator, diretor e dramaturgo. Nascido em São Luís do MA, escreveu mais de 15 peças de teatro (Perpétua, Opus Profundum, Desembestai!, Desconhecidos, Antiga, entre outras. Atuou em longas (Carandiru), novelas (A Favorita, Morde e Assopra), comerciais.  

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

cadáver rosa-fúcsia-salmão





formigas perdem o sono de comida. da janela do carro observam os produtos metalizados com veda-tudo  e aerossóis anti-mofo.

nas texturas das paredes passeiam, a olhos vistos, os resíduos das suas matas carameladas de açúcares, whiskas sachê,  e uma farofa rica de ração humana.

enquanto brilham, formigas, entre formiga verde-musgo, há gatos brancos e malhados sobre e abaixo dum cadáver rosa em rosa-fúcsia-salmão.







palavras adriana zapparoli

imagem davide de agostini art 

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Caballero andante




 Imagen Joel-Peter Witkin



Mientras el escudero y tres labriegos cargaban, por los llanos de Andalucía, el cadáver desnudo de Felixandro de Huelva, cayó de su penoso una gota de licor seminal. Nadie la vio, excepto un ejército de hormigas que fue transportando el líquido en sus propios cuerpos para compartir luego con toda la colonia. ¿Habrá logrado, Felixandro de Huelva, impregnar a la Reina?


***




Nacido en Buenos Aires, Argentina, y residente en Los Angeles, California, Pablo Baler es novelista, teórico y profesor de literatura latinoamericana y artes visuales en la Universidad Estatal de California en Los Angeles. Baler es también International Research Fellow del Centro de Investigación sobre el Arte de la Universidad de la Ciudad de Birmingham en el Reino Unido.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

por suas flores amarelas no inverno

imagem andrew ferez


Antonio Moura (Belém- Pará) é poeta com vasto trabalho publicado.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

para guardar na membrana do globo ocular



imagem Vania Zouravliov



(Do meu Livro de Travesseiro) Quanto a flores, o crisântemo dos cemitérios e altares budistas. O lótus branco que nasce na lama. A acácia que não tem perfume. O ipê que os imigrantes japoneses adotaram por saudade das cerejeiras. E a flor do capim.


*

Flash

Pela lente ele registra
o que ela foi e o que será
neste agora de dilemas
em sépia e preto & branco

(Ele sabe que ela não possui sombra)

Ela se deixa captar
em inúmeras imagens
que ele depois
vai destruindo

                            uma a uma

só para guardar na membrana do globo ocular
o que ninguém mais viu
                          ou verá

*


Leila Guenther publicou os livros de contos O voo noturno das galinhas (Ateliê Editorial, 2006), traduzido para o espanhol em 2010 (El vuelo nocturno de las gallinas, Peru, Borrador Editores), e Este lado para cima, (Sereia Ca(n)tadora, Revista Babel, 2011). Participou das antologias Quartas histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (Garamond, 2006), Capitu mandou flores: contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte (Geração Editorial, 2008), 50 versões de amor e prazer: 50 contos eróticos por 13 autoras brasileiras (Geração Editorial, 2012) e Cusco, espejo de cosmografías: antología de relato iberoamericano (Ceques Editores, 2014). Foi selecionada no Programa Petrobras Cultural 2012 com o livro de poemas e haicais Viagem a um deserto interior e prepara um novo volume de contos.




quinta-feira, 7 de agosto de 2014

secretar eros


fotografia joel-peter witkin


enlaçam-se no solo corpos amantes
de estacas cravadas nos olhos
visões-trepadeiras raiam-lhes sol
em lanças de sustência
as paredes de brisa invocam moldagem de terra
circunfundem-se nas flores
que se esfolam com um grão de areia
a profundidade suspira húmida
entre dedos enterrados em lama de arte
ao beber das veias
mamilos triangulados no sexo
absorvem feixes no estômago crepitado
onde chamas roubadas não derretem
rochas descrevem o arco na celeste abóbada
um pénis ergue-se flechado
ofega a libação da sede
aranhas-estrelas secretam suspensidade
pingam fios quentes
onde visões-trepadeiras abandonam o estacamento
corpos-frutos irrigam-se de dilúvios secretados
cintilantes suspendem pétalas
distendem a tremência do segredo

***


bruno miguel resende, nascido a 1981 no porto, portugal, é grão-mestre do instituto de

falosofia e hermenâutica. as suas obras escritas e performáticas são a referência mundial 

destas duas ciências.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Frenos


Imagem Ophelia’s Folly


Este amor por las muchachas que mi cuerpo no ignora. Este deseo que no sabe. Las muchachas que no ignoro, que no puedo acordarme, que deseo. Este amor que no sabe. Esta muchacha que no desea, que ignora mi cuerpo, que no sabe que desea. El ruido de los frenos de repente. No recuerdo este amor, pero el cuerpo no ignora. Esta muchacha me olvida, pero no lo sabe. Y yo que me sentía el centro, pero era un ruido de repente. No sé, no puedo recordarlo. Ella era una muchacha y yo este amor frenado. No, este deseo.



Esse amor pelas meninas que o meu corpo não ignora. Esse desejo que não sabe. As meninas que não ignoro, que não posso me lembrar, que desejo. Esse amor que não sabe. Essa menina que não deseja, que ignora o meu corpo, que não sabe que deseja. O barulho dos freíos de repente. Não recordo esse amor, mas o corpo não ignora. Essa menina me esquece, mas não o sabe. E eu que me sentia o centro, mas um ruído de repente. Não sei, não posso lembrá-lo. Ela era uma menina e eu esse amor freado. Não, esse desejo.

tradução adriana zapparoli


María Eugenia López - La Prata, Argentina. Poeta y Directora de la colección Chicas de Bolsillo - Editorial de la UNLP

sexta-feira, 18 de julho de 2014

MISS O’GINIA




imagem Валерия Белова/Photoartist Valery Belov


Samanta prepara sorvetes de sêmen. Acrescenta-lhes açúcar, raspinhas de chocolate e coco ralado, mas o ingrediente principal é o sêmen humano. Como sempre, ela reparte a suas sobremesas com a sua irmãzinha de oito anos; Samanta necessita de muitos namorados para <<ordenhar>>. Eu sou um deles. * 


*

Samanta prepara helados de semen. Les pone azúcar, chispitas de chocolate y coco rallado, pero el ingrediente principal es semen humano. Como siempre comparte sus postres con su hermanita de ocho años, Samanta necesita muchos novios a los que «ordeñar». Yo soy uno de ellos.


Fernando Escobar Páez - Quito, 1982. Poeta y narrador. Ha sido traducidos al inglés, alemán, portugués y francés. Colabora regularmente con varios medios impresos en las secciones de cultura y política.   http://missoginia.wordpress.com

tradução adriana zapparoli

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Equilibrista


photography by michal zahornacky/slovakia

***


Camina la cuerda en equilibrio,
los brazos tendidos
como zozobra sonriente.

Camina de punto a punto
repitiéndose,
sin volver la mirada o el paso
hacia el arranque.

Vira la cuerda en el viento,
trompo de asuntos al aire,
se hace ovillo,
se hace hueco en el centro.

Sigue la cuerda el camino
que llaman demencia,
los brazos tendidos y sonriente.


 ***


Caminha a corda em equilíbrio, 
os braços estendidos 
com ansiedade, sorridente. 

Caminha de ponto a ponto 
repetindo-se, 
sem voltar o olhar, ou o passo 
pra trás, fazia o arranque. 

Vira a corda ao vento, 
giro de assuntos ao ar, 
faz-se novelo
faz-se oco no centro. 

Segue a corda o caminho 
que chamam demência, 
os braços estendidos e sorridente.

tradução adriana zapparoli

****

Zingonia Zingone - Poeta, narradora y traductora. Creció entre Italia y Costa Rica, y es licenciada en Economía. Vive en Roma. Ha publicado cuatro poemarios en castellano, dos de los cuales han sido traducidos y editados en Italia. Su libro Equilibrista del olvido / L’equilibrista dell’oblio (Editorial Germinal, 2012; Raffaelli Editore, 2011), ha sido traducido al inglés The Acrobat of Oblivion (Poetrywala, 2011) y al kannada  (Aharnishi Prakashana, 2012). Su último libro Los Naufragios del desierto (Vaso Roto Ediciones, 2013) se compone de tres cuentos escritos en versos. Obras traducidas al español: Alarma de Virus (Ediciones Espiral, 2012), del poeta marathi Hemant Divate y La Cruz es un camino (Edizioni della Meridiana, 2013) del italiano Daniele Mencarelli.


quarta-feira, 2 de julho de 2014

LA LETANÍA DEL VIEJO QUE NO PUDO JUBILARSE


Imagen Robert & Shana ParkeHarrison


 ***
Trabajarás duro, todo el tiempo trabajarás,
con la jota de la palabra habrás de segar el trigo, el pasto,
navaja para la cebolla y las papas de tu almuerzo.

Trabajaste duro, de ocho a ocho,
como una costra te quitaste la cara del sueño,
y otra cara dejaste para salir al trabajo.

Ahora el sol se oculta, y dos horas después habrás de salir,
con las manos vacías otra vez,
a tratar de dormir entre esas paredes que llamas casa.

Trabajaste duro,
por eso tienes el sueño pesado
y la música de borrachos holgazanes
no te despierta.

Te despierta el aroma de una sopa, hirviendo en la cocina,
un golpe te despierta de pronto,
un golpe de angustia:
eres tú, pero cuando eras niño, pidiendo un dulce,
queriendo ser adulto,
de una vez por todas, decías,
comprar el mundo con dinero propio.

Trabajarás duro todo el tiempo,
todos los días verás mi letrero
todo el tiempo vencido,
en espera de un empleado,
en espera de dinero,
tuerto contando las deudas
billetes apolillados
que en las manos se deshacen.
 ***


Jair Cortés nació en Calpulalpan, Tlaxcala, México, en 1977. Poeta, traductor, ensayista y promotor cultural. Maestro en Literatura mexicana por la BUAP. Actualmente es columnista del suplemento cultural La jornada semanal del diario La Jornada. Autor de los libros A la Luz de la sangre (1999), Tormental (2001), Dispersario (2001), Contramor (2003), Caza (con el que obtuvo el Premio Nacional de Poesía “Efraín Huerta” 2006), Enfermedad de Talking (2008) y Ahora que vuelvo a decir ahora: una reconciliación poética (Eternos malabares-INBA, 2013). Twitter: @jaircortes

quinta-feira, 26 de junho de 2014

La forma de las líneas no consuela




Fotografía por Michal Zahornacky/Slovakia




(La forma de las líneas no consuela)


Calcular la sombra
midiendo la negrura de los días.
Dividir las esquinas de la tierra
en una página.
Muerde el tránsito.
Rompe la metáfora.
Nuestros huesos alienados
no abrigarán nunca las ausencias.
Así
nos duelen las horas.
 ***

(A forma das linhas não consola)

Calcular a sombra
Medindo o negrume dos dias.
Dividir as esquinas da terra
em uma página.
Morde o trânsito.
Rompe a metáfora.
Nossos ossos alienados
não abrigarão, nunca, as ausencias.
Assim
nos doem as horas.

(tradução adriana zapparoli)
 *** 






Andrea Aguirre (Buenos Aires, 1980) es licenciada en Pedagogía y máster en Psicología Educativa por la UCM. Actualmente finaliza sus estudios de Teoría de la Literatura mientras trabaja en el desarrollo de proyectos psicoeducativos. Sus últimos poemarios son El ciclo lunar de los paréntesis (2012) y La infancia suicida de Verónica Qué (2013), ambos de Ártese quien pueda Ediciones. Sus poemas han sido publicados en la antología Voces del Extremo Madrid 2013, y en diversos medios y revistas literarias.

quarta-feira, 18 de junho de 2014

elonga en un sudario su misterio






imagen Carme Martí


Cuando todo está dicho
I
La música en tu présbita mirada
barrunta sinfonías de silencio,
palabras que jamás serán dictado
sarmiento de tus lágrimas marchitas.

Tu pelo blanquecino en un tocado
esconde una belleza trasvenada,
tu cuerpo en consunción y resiliente
elonga en un sudario su misterio.

El tiempo se detiene en tu sonrisa
sonrisa con tus ojos en disenso
pupilas esperando un imposible.

Tu rezo es invisible y silencioso
¡Oh, sombra atemporal, desmemoriada!
Acrílico y seráfico fantasma.



****




Heberto de Sysmo es el seudónimo literario de José Antonio Olmedo López-Amor escritor y poeta (Valencia, 1977). Articulista, ensayista, cronista, miembro del consejo editorial de la revista Todoliteratura.es. Es crítico cinematográfico y literario especializado en poesía. Es redactor en más de veinte medios digitales como: Culturamas, Literaturas.com, Sede o Fábula. En el año 2011 publicó el poemario Luces de Antimonio, en 2012 el poema Anaranjado de metilo, en 2013 El nacimiento de la Música, todos bajo el sello editorial Ateneo Blasco Ibáñez. Ganador de nueve premios literarios entre poesía, narrativa y ensayo. Embajador de la Rima Jotabé en la Comunidad Valenciana. 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

El tísico

 imagen robert connett



***

Mi boca agonizante se llena de mujer
y la palabra tristeza baila un vals
se sirve un vaso con pisco en cada habitación del pensamiento
todo bentónico cojea perfumista sobre la carne
y no hay mancilla en el dolor que silba el mendigo
ni humo en la exclamación
la palabra mujer y el vuelo del mosquito se confunden
su nombre se ensancha en cada trago
en cada ladrido que zumba lánguido el signo de su párpado
el hombre en su repetición de excremento
se suscribe a cada puñal ensortijado
Madrid de soledad ambulante y su noche travestida de pizzas
con el hábito inmigrante de exiliarse en su lenguaje
déjenme morir dice el vals
déjenme solo entre las sombras y la guitarra llora como un manatí
que ha perdido su alegría en el río
todos los barcos de Vigo se han hundido en la Gran Vía
borracho termino en sus riberas.

***





Giovanni Collazos Carrasco nació en Lima el 24 de octubre de 1977 y reside en Madrid desde finales de 1999. En 2003 comenzó a acudir a los talleres de poesía y escritura creativa que imparte la asociación cultural “Clave 53”, dirigida por el poeta Giusseppe Domínguez, y desde 2008 continúa su trayectoria en solitario, alternando la lectura de autores clásicos y modernos con la asistencia a recitales y la publicación de poemas propios en su blog “El plebeyo” (http://gio-collazosc.blogspot.com). Cuenta con dos libros muy avanzados pero aún no concluidos, “Ojos de paiche” y “Gato techero”, y con uno terminado que mantiene inédito, “El hombre cuneiforme”. Ha publicado la plaquette, “Landó blues” (ultramarina ediciones) y su primer poemario publicado es “Contra la niebla” (Unaria ediciones), en el 2013. Poemas suyos han aparecido en cuatro antologías madrileñas y en varias revistas literarias de España, Perú, Chile y México. Actualmente se encuentra escribiendo un nuevo poemario y sigue actualizando su blog.