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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
cadáver rosa-fúcsia-salmão
formigas perdem o sono de comida. da janela do carro observam os produtos metalizados com veda-tudo e aerossóis anti-mofo.
nas texturas das paredes passeiam, a olhos vistos, os resíduos das suas matas carameladas de açúcares, whiskas sachê, e uma farofa rica de ração humana.
enquanto brilham, formigas, entre formiga verde-musgo, há gatos brancos e malhados sobre e abaixo dum cadáver rosa em rosa-fúcsia-salmão.
palavras adriana zapparoli
imagem davide de agostini art
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terça-feira, 29 de julho de 2014
Frenos
Imagem Ophelia’s Folly
Este amor por las
muchachas que mi cuerpo no ignora. Este deseo que no sabe. Las muchachas que no
ignoro, que no puedo acordarme, que deseo. Este amor que no sabe. Esta muchacha
que no desea, que ignora mi cuerpo, que no sabe que desea. El ruido de los frenos
de repente. No recuerdo este amor, pero el cuerpo no ignora. Esta muchacha me
olvida, pero no lo sabe. Y yo que me sentía el centro, pero era un ruido de
repente. No sé, no puedo recordarlo. Ella era una muchacha y yo este amor
frenado. No, este deseo.
Esse amor pelas meninas
que o meu corpo não ignora. Esse desejo que não sabe. As meninas que não
ignoro, que não posso me lembrar, que desejo. Esse amor que não sabe. Essa
menina que não deseja, que ignora o meu corpo, que não sabe que deseja. O
barulho dos freíos de repente. Não recordo esse amor, mas o corpo não ignora.
Essa menina me esquece, mas não o sabe. E eu que me sentia o centro, mas um
ruído de repente. Não sei, não posso lembrá-lo. Ela era uma menina e eu esse
amor freado. Não, esse desejo.
tradução adriana zapparoli
María Eugenia López - La
Prata, Argentina. Poeta y Directora de la colección Chicas de Bolsillo -
Editorial de la UNLP
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sexta-feira, 18 de julho de 2014
MISS O’GINIA
imagem Валерия Белова/Photoartist Valery Belov
Samanta prepara sorvetes de sêmen. Acrescenta-lhes açúcar, raspinhas de chocolate e coco ralado, mas o ingrediente principal é o sêmen humano. Como sempre, ela reparte a suas sobremesas com a sua irmãzinha de oito anos; Samanta necessita de muitos namorados para <<ordenhar>>. Eu sou um deles. *
*
Samanta prepara helados de semen. Les pone azúcar, chispitas de chocolate y coco rallado, pero el ingrediente principal es semen humano. Como siempre comparte sus postres con su hermanita de ocho años, Samanta necesita muchos novios a los que «ordeñar». Yo soy uno de ellos.
Fernando Escobar Páez - Quito, 1982. Poeta y narrador. Ha sido traducidos al inglés, alemán, portugués y francés. Colabora regularmente con varios medios impresos en las secciones de cultura y política. http://missoginia.wordpress.com
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quinta-feira, 3 de julho de 2014
Equilibrista
photography by michal zahornacky/slovakia
***
Camina la cuerda en equilibrio,
los brazos tendidos
como zozobra sonriente.
Camina de punto a punto
repitiéndose,
sin volver la mirada o el paso
hacia el arranque.
Vira la cuerda en el viento,
trompo de asuntos al aire,
se hace ovillo,
se hace hueco en el centro.
Sigue la cuerda el camino
que llaman demencia,
los brazos tendidos y sonriente.
***
tradução adriana zapparoli
Caminha a corda em equilíbrio,
os braços estendidos
com ansiedade, sorridente.
Caminha de ponto a ponto
repetindo-se,
sem voltar o olhar, ou o passo
pra trás, fazia o arranque.
Vira a corda ao vento,
giro de assuntos ao ar,
faz-se novelo
faz-se oco no centro.
Segue a corda o caminho
que chamam demência,
os braços estendidos e sorridente.****
Zingonia Zingone - Poeta,
narradora y traductora. Creció entre Italia y Costa Rica, y es licenciada en
Economía. Vive en Roma. Ha publicado cuatro poemarios en castellano, dos de los
cuales han sido traducidos y editados en Italia. Su libro Equilibrista del
olvido / L’equilibrista dell’oblio (Editorial Germinal, 2012; Raffaelli
Editore, 2011), ha sido traducido al inglés The Acrobat of Oblivion (Poetrywala,
2011) y al kannada (Aharnishi
Prakashana, 2012). Su último libro Los
Naufragios del desierto (Vaso Roto Ediciones, 2013) se compone de tres
cuentos escritos en versos. Obras
traducidas al español: Alarma de Virus
(Ediciones Espiral, 2012), del poeta marathi Hemant Divate y La Cruz es un camino (Edizioni della
Meridiana, 2013) del italiano Daniele Mencarelli.
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quinta-feira, 26 de junho de 2014
La forma de las líneas no consuela
Fotografía por Michal
Zahornacky/Slovakia
(La forma de las líneas no
consuela)
Calcular la sombra
midiendo la negrura de los días.
Dividir las esquinas de la tierra
en una página.
Muerde el tránsito.
Rompe la metáfora.
Nuestros huesos alienados
no abrigarán nunca las ausencias.
Así
nos duelen las horas.
***
(A forma das linhas não
consola)
Calcular a sombra
Medindo o negrume dos dias.
Dividir as esquinas da terra
em uma página.
Morde o trânsito.
Rompe a metáfora.
Nossos ossos alienados
não abrigarão, nunca, as ausencias.
Assim
nos doem as horas.
(tradução adriana zapparoli)
***
Andrea Aguirre (Buenos Aires, 1980) es
licenciada en Pedagogía y máster en Psicología Educativa por la UCM. Actualmente
finaliza sus estudios de Teoría de la Literatura mientras trabaja en el
desarrollo de proyectos psicoeducativos. Sus últimos poemarios son El ciclo lunar de los paréntesis (2012)
y La infancia suicida de Verónica Qué
(2013), ambos de Ártese quien pueda Ediciones. Sus poemas han sido publicados
en la antología Voces del Extremo Madrid 2013, y en diversos medios y revistas
literarias.
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terça-feira, 24 de junho de 2014
Correspondências: Mosaico
Fotografia de Nina Rizzi sobre pop art do IVAM - Instituto Valenciano de Arte Moderna/ Espanha.
CATANDO OS CACOS DO CAOS
Catar os cacos do caos
como quem cata no deserto
o cacto
- como se fosse flor.
Catar os restos e ossos
da utopia
como de porta em porta
o lixeiro apanha
detritos da festa fria
e pobre no crepúsculo
se aquece na fogueira erguida
com os destroços do dia.
Catar a verdade contida
em cada concha de mão,
como o mendigo cata as pulgas
no pêlo
- do dia cão.
Recortar o sentido
como o alfaiate-artista,
costurá-lo pelo avesso
com a inconsútil emenda
à vista.
Como o arqueólogo
reunir os fragmentos,
como se ao vento
se pudessem pedir as flores
despetaladas no tempo.
Catar os cacos de Dionisio
e Baco, no mosaico antigo
e no copo seco erguido
beber o vinho
ou sangue vertido.
Catar os cacos de Orfeu partido
pela paixão das bacantes
e com Prometeu refazer
o fígado
- como era antes.
Catar palavras cortantes
no rio do escuro instante
e descobrir nessas pedras
o brilho do diamante.
É um quebra-cabeça? Então
de cabeça quebrada vamos
sobre a parede do nada
deixar gravada a emoção
Cacos de mim
Cacos do não
Cacos do sim
Cacos do antes
Cacos do fim
Não é dentro
nem fora
embora seja dentro e fora
no nunca e a toda hora
que violento
o sentido nos deflora.
Catar os cacos
do presente e outrora
e enfrentar a noite
com o vitral da aurora
- Affonso Romano de Sant'Anna
Todos os artistas têm de lutar com os elementos materiais de sua arte. Os materiais usados por eles têm propriedades difíceis de controlar e até, por vezes, imprevisíveis, e, o mais complicado de tudo, não é nada fácil para os artistas encontrar uma forma de mostrar em tinta, carvão, mosaico ou vidro exatamente do modo planejado. O êxito da produção de uma grande obra de arte é uma rara e maravilhosa proeza.
Os artistas contam, frequentemente, com uma tradição para ajudá-los. Existem formas aceitas de narrar histórias consagradas, e isso significa que um pintor nem sempre tem de repensar cada elemento num quadro. Por exemplo, muitos pintores do século XIV ilustraram a comovente história de Joaquim e Ana, os pais de Maria. Eles tinham envelhecido sem filhos, e esse fato muito os contristava. Depois de muito sofrimento e muita oração, seu desejo de terem um filho foi cumprido finalmente. Um anjo desceu até Joaquim, quando este estava cuidando de seu rebanho, e disse-lhe que ele iria, enfim ser pai; nesse meio tempo, outro anjo acercou-se de Ana, enquanto ela estava em sua horta, e deu-lhe a mesma notícia milagrosa. Os dois anciãos, rejubilando com a inesperada resposta a suas preces, correram ao encontro um do outro e, quando Joaquim regressava da montanha e Ana saía apressada de sua casa, encontraram-se na porta dourada da cidade. Esse era o feliz momento que os pintores habitualmente escolhiam para ilustrar.
Taddeo Gaddi, dá-nos uma competente representação da cena: equilibrada, circunspecta, notavelmente superior às representações comuns. Joaquim e Ana estão praticamente no centro da pintura; estendem carinhosamente as mãos um para o outro, e olham-se profundamente nos olhos. A muralha da cidade, atrás deles, isola suas cabeças, emolduradas por halos, enquanto, à esquerda, a figura de um pastor indica que Joaquim acaba de chegar do campo, e a mulher atrás de Ana mostra que esta saiu da cidade há poucos instantes. Numa leitura da simbologia corporal pode-se observar que seus corpos negam o beijo, pelos pés que se afastam do corpo, no que provavelmente o artista quis transmitir leveza e ternura.
Giotto di Bondone (italiano, ca. 1267-1337), O encontro de Joaquim e Ana, ca. 1304-1313. Afresco na Capela Scrovegni (arena), Pádua.
Mas um grande artista como Giotto transforma uma cena tão convencional em algo muito mais profundo e comovedor. As duas figuras principais não estão colocadas no centro, mas as linhas da composição guiam inexoravelmente nosso olhar para o núcleo emocional da história. Beijam-se ternamente. A curva de seu afetuoso abraço, tão estreito que suas figuras se fundem num único contorno, repete-se ampliada no grande arco do portão da cidade, à sua direita. A própria forma arquitetônica aumenta nossa apreciação do conteúdo da cena.
*
sobre mosaico fluido – impressões e expressões
por guilherme gontijo flores
saiu faz pouco uma nova edição de poesia traduzida pela lumme editor: mosaico fluido, do dominicano león félix batista (1964-), em versões da poeta adriana zapparoli. a poesia dele já havia aparecido por estas margens numa antologia, prosa do que está na esfera, organizada & traduzida por claudio daniel & fabiano calixto, ainda em 2003. aqui temos um livro inteiro, o que é sempre importante para entendermos melhor a obra de um poeta que vai se aclimatando no brasil. a tradução de zapparoli é um trabalho cuidadoso, atento às sonoridades da poesia na língua original & na língua de chegada. basta lermos um poema curto para percebermos como funciona seu trabalho:
cuando amé depredé
las superficies tersas
el volátil equilibrio de la duna
cuando vi siempre ardí
con la piel del farallón
en los ángulos agudos del menguante
una ola destroncada
de la masa corroída
sólo escupe contenidos epilépticos
quando amei depredei
as superfícies tersas
o equilíbrio volátil da duna
quando vi para sempre ardi
com a pele de falésia
nos ângulos agudos do minguante
uma onda arrancada
da massa corroída
apenas cospe conteúdos epilépticos
diante os jogos sonoros do original, tais como en los ánGUlos aGUdos del menGUante, zapparoli aproveita a proximidade das línguas (“nosânGUlos aGUdos do minGUante”); porém nos trechos em que a sonoridade diverge, vemos soluções que reformulam a sonoridade no português, com algumas belas soluções: é o caso de “pELE da fALÉsia”, ou do detalhe de “ONda arrANcada” que ainda ecoará no verso seguinte em “massa corroída”. a cada poema do livro, é possível ver os momentos em que as línguas se encontram & se afastam, mas melhor que contabilizar proximidades & distâncias, será ver como essas distâncias manejadas por adriana zapparoli é que, de fato, reformulam a poesia de león félix batista.
>> guilherme gontijo flores (brasília, 1984) é poeta, professor e tradutor. estreou com os poemas de brasa enganosa (2013). publicou traduções de as janelas, seguidas de poemas em prosa franceses, de rainer maria rilke (em parceria com bruno d'abruzzo), e d'a anatomia da melancolia, de robert burton, em 4 volumes (prêmio apca de melhor tradução). neste momento prepara a tradução integral das elegiasde sexto propércio. participa do blog coletivo escamandro (www.escamandro.wordpress.com), que agora também é uma revista impressa.
MOSAICO FLUIDO
Autor: BATISTA, LEON FELIX
Tradutor: ZAPPAROLI, ADRIANA
Idioma: PORTUGUÊS
Editora: LUMME EDITOR
Assunto: LITERATURA ESTRANGEIRA
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quarta-feira, 21 de maio de 2014
então, veja meu amor, porque não esqueço os seus olhos verdes ...
imagem Ryohei Hase...
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não é duvidoso ou controverso o fato de que a totalidade dos coelhos são domésticos?
revirados de escuros, trompas, trombas e o láparo em falópio. reflete seus conceitos alipos costumizados entre cogumelos de elite, sonhos retangulares, e ossos de seus oficios, em seus orifícios de sentimentos dispostos em recipiente quadrado. um láparo em sua cama, sua trama, sua transa [desqualificada em perfume], claro, são ostras podres não voláteis- quase um ovo decompondo sentimentos - que diluem em nobre pútrido - trama de vibrio vulnificus, em consumo, em sintomas, [sim] urro-náusea, vômito, e uma diarreia aguada... um láparo, sempre desgraçado, e sua dieta láctea um caçapo, um coelho mamífero inerte, de prepúcio odorífero em hábito noturno. sua cauda curta anti-andarilhos, ou corredores, vivendo sobre o mesmo teto entre outros animais quadrúpedes.
então, veja meu amor, porque não esqueço os seus olhos verdes ...
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palavras adriana zapparoli ( a colunista )
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